Gregory Klimov «A máquina do terror»

Capítulo 16. O PARTIDO DE STALIN

I

Os dias tornaram-se semanas, as semanas em mêses. Incessantemente lapso de tempo, no qual não havia finalidade, no qual a a gente apenas olhava para trás e sentia grande vazio na alma.

Chegou o inverno. Aproximava-se o ano de 1947. Em nós, homens soviéticos, que estávamos nos limites entre dois mundos, isso provocava poucas recordações agradáveis e ainda pouquíssimas expectativas animadoras. Ainda recentemente havíamos presenciado dois acontecimentos dignos de nota: em outubro houve a primeira eleição de após guerra para o conselho municipal de Berlim e, em novembro, a eleição regular de candidatos ao Conselho Supremo da U.R.S.S.

As eleições alemãs despertaram mais interêsse entre os residentes soviéticos de Berlim, do que se esperava, talvez por causa da diferença total daquela a que estávamos habituados. Era estranho ver os lemas pré-eleitorais dos vários partidos. Ficámos surpreendidos com a propaganda poderosa e intellgente do Partido Unitário Socialista, onde se percebia a longa experiência da propaganda soviética, auto-confiança e desavergonhada. Nós, que éramos os mestres do S.E.D. e sabíamos o que havia por detrás dêle, surpreendiamo-nos com êste último aspecto.

Na Adminisração da Indústria da A.M.S., as eleições berlinenses levaram o Capitão Bagdassarian e o Major Zhadanov à seguinte conversa:

– Sabe de uma coisa, disse o capitão, apontando para os resultados impressos nos jornais, quando penso nessa eleição, tenho um pensamento estranho. Todos os partidos estão votando. Suponhamos que o Partido Comunista obtenha maioria. Quer isso dizer que os outros deixarão que êle assuma o poder?

– Sim, parece que isso, respondeu o major, com incerteza.

– Que engraçado! Se o Partido Comunista subir ao poder, o primeiro passo será quebrar o pescoço dos outros partidos. Entretanto, êsses partidos estão dispostos a entregar o poder às mãos do Partido Comunista sem oferecer resistência. Isso não tem sentido!

– Você não pode compreender a democracia, assim de repente, suspirou o major.

– É supina idiotice, concordou o capitão.

– Talvez não seja tão estúpido, respondeu o major, soerguendo os sobrolhos. A democracia, como forma política, a vontade da maioria. Se a maioria vota pelo comunismo, haverá comunismo. Na verdade, poucos estão votando por êle, no momento! terminou, em tom diferente.

– De qualquer maneira, é esquisito, continuou o Capitão Bagdassarian, percorrendo o cabelo com os dedos. Todos se desfeiteiam e ninguém mete o outro na prisão. Mas nós faze mos justamente o reverso: ninguém diz nada e é metido na cadeia. Um homem nem mesmo pensa e já está na cadeia...

Em dezembro de 1946, O Clube dos Oficiais, em Karlshorst foi cena das reuniões eleitorais, nas quais os candidatos eram indicados para o Conselho Supremo da U.R.S.S. dia designado para a Administração da Indústria, todos os empregados da Administração tiveram que ir ao Club, decorado para a ocasião, com retratos dos líderes e fitas vermelhas.

Durante certo tempo, sentámo-nos no vestíbulo, grandemente aborrecidos. Afinal, o presidente chamou um orador, prèviamente arranjado que, com um papel na mão, foi até a plataforma e, em tom monótono, começou a explicar a nossa felicidade em poder eleger os representantes da nossa suprema autoridade governamental. Em seguida, outro orador foi à plataforma, propor nosso candidato do Distro Eleitoral Especial, formado pela Zona de Ocupação Soviética. Logo depois surgiu o próprio candidato que nos contou sua vida. Era um general, mas eu duvido que êle tenha falado de maneira mais humilde e servil em tôda a sua prévia carreira militar. O segundo candidato era alguém desconhecido para nós. Soubemos que essa pessoa existia sòmente quando subiu à plataforma, não vindo da ala, mas do meio da sala. Fôra escolhido para representar o papel de candidato "do próprio coração do povo". Ambos candidatos haviam sido apresentados, com antecedência pela Administração Política da A.M.S. e aprovados por Moscou.

Todos nós esperávamos, com impaciência, que essa cerimônia terminasse, pois deveria seguir-se a exibição de um filme. Quando o presidente anunciou o propósito de receber os votos, a sala inteira suspirou aliviada e todos, apressadamente ergueram as mãos, sem esperar convite. Armados de lápis e papel, os contadores começaram a percorrer, apressamente,, a sala. A assistência começou a murmurar, impaciente. Afinal os votos foram contados e o presidente perguntou em tom sonolento:

– Alguém contra?

Fêz-se um silêncio mortala. Ninguém se moveu.

O presidente esperou um ou dois minutos, olhou em volta, e, para aumentar o efeito da decisão unânime, perguntou em tom de fingida surpresa:

– Ninguém contra?

E assim elegemos dois homens "escolhidos pelo povo" para o Conselho Supremos da U.R.S.S.

O novo ano trouxe várias inovações que fizeram a gente olhar mais uma vez para os dezoito mêses desde a rendição da Alemanha.

Inaugurou-e uma campanha histérica de "vigilância". Departamentos de Pessoal foram instituidos em tôdas as secções da A.M.S. com o objetivo evidente de vigiar atentamente os empregados. Mais uma vez recebemos os extensos questionários para os "cidadãos soviéticos no exterior", que, com infindável lista de perguntas, tinham que ser preenchidos cada três mêses. Muitos de nós guardávamos uma cópia do questionário e as respostas de modo que, na vez seguinte, apenas copiávamos as velhas resposta em nova forma.

Um tenente desmobilizado das fôrças da N.K.V.D. foi designado chefe do Departamento do Pessoal da Administra ção da Indústria. Desde o início agiu êle com tal rudeza e insolência que muitos dos oficiais, que eram de pôsto superior, ficaram enfurecidos. Sua sala era no porão e êle então telefonava dizendo:

– Camarada Coronel, venha até cá encher o seu questionário.

Mas muito frequentemente recebia êle esta resposta:

– Se precisa do questionário, traga-o aqui. Até agora ainda sou coronel, creio.

Uma ordem do General Dratvin, chefe do pessoal do A.M.S. foi baixada para a informação de todos os membros da A.M.S., na qual, sem mencioanar nomes declarava que esposas de inúmeros funcionários soviéticos de categoria iam ao setor ocidental de Berlim, enquanto os maridos estavam trabalhando, e travavam conhecimento proibido com oficiais das potências ocidentais. A ordem era em têrmos ríspidos, referindo-se aos restaurantes expensivos, casacos caros e, para coroar tudo, aos agentes do serviço secreto estrangeiro. Tôdas as mulheres acusadas foram enviadas de volta à União Soviética, dentro de vinte e quatro horas e os maridos repreendidos severamente pela falta de vigilância bolchevique.

O propósito secreto desta forma desusadamente franca estava revelado no segundo parágrafo, em que todos os membros da A.M.S. eram terminantemente proibidos de visitar o setor ocidental e lembrados da necessidade de uma vigilância especial pelo fato de residirem no exterior. As mulheres foram castigadas a fim de servir de advertência as outras.

Em conclusão, o General Dratvin ameaçava a aplicação de medidas mais severas aos que violassem a ordem... até o repatriamento à União Soviética. Ao dizer isso, o general foi muito longe, pois, oficialmente, nas palavras do chefe do pessoal da A.M.S. a volta à terra natal era reconhecida como séria punição para os cidadãos soviéticos no estrangeiro.

Nada disso era-nos novidade. Já havíamos experimentado tudo isso, na pátria, mas, vindo depois da guerra vencida por nós, depois que haviámos esperado alterações no sistema soviético e, acima de tudo, depois da relativa liberdade na Alemanha ocupada, êste retôrno abrupto às práticas anteriores deixava-nos furiosos, ou melhor, fazía-nos evitar pensar, o que era a única esperança.

II

Eu conhecera o Major Dubov durante a guerra. Mesmo uma breve camaradagem na frente de combate liga os homens mais fortemente do que muitos anos de conhecimento em situação normal. Essa deve ter sido a razão pela qual nos cumprimentámos como velhos conhecidos, quando nos revemos como funcionários da A.M.S.

Tinha mais de quarenta anos. Exteriormente severo e nada comunicativo, possuia poucos amigos, evitando a sociedade. A princípio considerei sua reserva simplesmente como um traço de seu caráter, mas, depois de certo tempo, notei que tinha mórbida antipatia por quem começasse a falar sôbre política. Eu supunha que devia ter boas razões para essa atitude de modo que nunca o incomodei com perguntas desnecessárias.

Foi assim que fui a única pessoa que Dubov apresentou a sua família, uma esposa encantadora e bem educada e dois filhos. Quando conheci a família, compreendi que não era sòmente um bom pai e marido, mas um homem raramente decente.

Sua grande paixão era a caça, o que nos aproximou mais ainda. Frequentemente saíamos de Karlshorst, aos sábados, passando o dia e a noite inteira caçando, separados do mundo.

Em 1938, Dubov era engenheiro e trabalhava numa fábricaa de Leningrado, que produzia instrumentos de precisão. Era engenheiro capaz e tinha uma posição de responsabilidade relacionada com a construção de instrumentos para as fôrças aéreas e para a marinha. Gostava do emprêgo, devotava o tempo livre a pesquisas e pouco se incomodava com a política. A despeito do posto de responsabilidade, continuava um homem não pertencente ao Partido.

Um dia, foi êle chamado ao gabinete do diretor, e, desde êsse momento não mais foi visto na fábrica, nem mesmo voltando para casaa. Sua espôsa soube o que lhe acontecera quando a N.K.V.D. apareceu no seu apartamento, noite a dentro, realizando completa busca e confiscando tôda a propriedade particular do marido. No dia seguinte ela dirigiu-se a N.K.V.D. saber notícias dêle, sendo informada que nada sabiam a seu respeito e aconselhada a não se aborrecer nem os outros. Se houvesse necessidade, ela seria informada.

Dubov passou mais de um ano nas celas de investigação da N.K.V.D., acusado de sabotagem e atividade contra-revolucionária. A sentença foi a comum: dez anos de prisão, num dos acampamentos da Sibéria Central, onde estavam sendo construidas novas fábricas, onde continuou a trabalhar como engenheiro.

Somente dois anos depois é que conseguiu saber o motivo da sua prisão. Entre um grupo recém-chegado de prisioneiros, descobriu o ex-engenheiro chefe da fábrica de Leningrado, de instrumentos de precisão. Dubov ficou satisfeito ao vê-lo, mas o homem pareceu constrangido e evitou-o o mais que pôde. Com o decorrer dos mêses, os dois engenheiros estabeleceram amizade baseada nas lembranças comuns da liberdade e, um dia, a conversa voltou-se para os motivos pelos quais haviam sido condendos.

– Alguém me denunciou, disse Dubov.

O engenheiro chefe afastou o olhar, suspirou e depois riu amargamente:

– Gostaria de saber quem foi? perguntou.

Dubov fitou-o, com desconfiança.

– Foi eu, disse êle, prosseguindo, apressadamente, sem dar oportunidade que Dubov fizesse qualquer comentário. Regularmente recebíamos ordens da N.K.V.D. que lhes fornecessem nomes de pessoas com tais e tais qualificações. As listas tinham que ser organizadas pelo organizador do Partido e confirmadas pelo engenheiro-chefe e pelo diretor. Que poderia eu fazer? Também eu tinha espôsa e filhos...

– Mas por que fui pôsto na lista? perguntou Dubov, ansioso.

– Porque você não era membro do Partido, respondeu o ex-engenheiro-chefe. O organizador do Partido denunciou-o. Dubov nada falou, por certo tempo, mas, depois, olhando cansado para o outro, indagou:

– Mas como veio parar aqui?

O engenheiro apenas encolheu os ombros, sem nada dizer.

Dubov passou quatro anos no acampamento, mas nêsses anos, não sofreu tanto como a espôsa e os filhos. Segundo a lei soviética, a culpa do prisioneiro estende-se até incluir a família. Sua mulher ficou moral e fisicamente abalada. As crianças cresceram sabendo que o pai era um "inimigo do povo" e sempre percebiam que não eram como as outras crianças.

Em 1943, foi êle libertado, antes de expirar o prazo de condenação, e, sem nenhuma explicação, foi completamente reabilitado e apagada a prisão. Do acampamento prisão foi transferido para o exército, razão verdadeira da libertação prematura. Sem ver a família, seguiu para a frente de combate, diretamente, como oficial.

Na frente foi oficial exemplar, da mesma forma que fôra engenheiro exemplar em Leningrado e prisioneiro no acam pamento da Sibéria. Era justo com os seus homens e impiedoso com o inimigo, devotando-se ao país natal, com todos os organizadores de Partid e prisões.

Puco antes de terminar a guerra, recebeu outra condecoração de combate, além do honroso convite para ingressar no Partido Comunista. Esta vez não hesitou. Sem uma palavra, preencheu o questionário e, sem uma palavra, aceitou o cartão do Partido que representante político do comandante lhe apresentou.

Na A.M.S. o Major Dubov era considerado um dos engenheiros de maior conhecimento e confiança. Foi-lhe confiada a missão de transferir a indústria alemã, na zona soviética, para novos lugares, mas seu pôsto continuou o mesmo. Por que? Porque, embora tivesse sido completamente reabilitado e a condenação extinta, na sua ficha pessoal havia uma breve nota: "Convicto pelo artigo 58". Isso era o bastante para lançar sombra em tôda a sua vida futura.

III

Durante minha estada Karlshorst, formei íntima amizade com o Capitão Belyavsky. Pouco a pouco vim aconhecer sua história, embora falasse com relutância a respeito de si mesmo e apenas fizesse algumas alusões.

Em 1939, Belyavsky estava na Espanha, onde era tenente das fôrças republicanas, mais ou menos na época em que o terror Yezhov estava no máximo, na União Soviética. Uma noite seu pai foi preso e desapareceu sem o menor vestígio. Belyavsky foi imediatamente chamado da Espanha e desmobilizado. Até 1941 compartilhou do destino dos outros parentes dos "inimigos do povo", ou, em outras palavras, ficou à margem. Tôdas as esferas da vida soviética em que a primeira exigência é um questionário completo foram-lhe fechadas. Somente um cidadão soviético pode compreender todo o significado dessa situação.

Quando a guerra eclodiu, 1941, não foi convocado para o exército, uma vez que era "políticamente incapaz", mas, quando as fôrças alemãs começaram o cêrco da sua cidade natal, Leningrado, dirigiu-se ao comando militar e voluntariou-se para o serviço. Seu pedido foi aceito, e, no mesmo dia, como soldado raso, foi lançad à luta, num batalhão de punição. Em outras palavras, diretamente para a morte, mas o destino lhe foi mais complacente do que o regime soviético e escapou ferido.

Durante três anos, serviu como soldado raso, nas batalhas da frente de Leningrado. Sua fôlha de serviço era exemplar, sendo recomendado várias vêzes para o pôsto de oficial, mas tôdas as vêzes o questionário punha um ponto final nisso. Em 1944, quando os exércitos soviéticos sofriam de grande escassez de oficiais, foi promovido.

O coronel que o entrevistou indicou-lhe o cabeçalho, dizendo "artigo 58" no questionário, e perguntou:

– Por que sempre menciona isso?

Belyavsky não respondeu.

– É porqu não quer lutar? perguntou o coronel, duramente, evitando olhar as medalhas no peito de Belyavsky que apenas encolheu os ombros.

As condecorações tintilaram um pouco, como que respondendo às perguntas do coronel.

– Se continuar com essa declaração, precisarei considerá-la como tentativa de evitar o serviço militar, falou o superior. Leve nova fórmula e preencha-a certo. Deixe um espação para o pôsto.

O soldado Mikhail Belyavsky não voltou à sua companhia, mas, no dia seguinte, o primeiro tenente Belyavsky estava a caminho de Moscou, com uma ordem de apresentação ao Colégio Diplomático-Militar do EstadoMaior do Exército Vermelho. Havia falta de homens, no período de guerra e não valia a pena incomodar-se com um exame detalhado od questionário. Depois da guerra haveria muitas oportunidades para isso, de modo que Mikhail Belyavsky entrou para um dos colégios militares mais privilegiados da União Soviética.

Em outubro de 1945 deixou o colégio com o pôsto de capitão, sendo enviado para trabalhar na Administração Militar Soviética. Isso não era extraordinário pois muitos estudantes ficavam livres de estudos posteriores, no meio do segundo ano, a fim de assumir um pôsto.

A ficha pessoal do Capitão Belyavsky, nos arquivos do Departamento do Pessoal da A.M.S. estava imaculada e, repetidas vêzes via-se a frase: "devotado ao Partido Lenine-Stalinista", o que se podia encontrar nas fichas de todos os oficiais, com adistinção de que na dêle, era mais verdadeira do que na da maioria.

Certos dias eram destinados à instrução política e, num dêles, Belyavsky dirigiu-se ao seu escritório, duas horas antes, como de hábito, abrindo os jornais. O círculo educacional a que pertencia era de nível bem alto, pois consistia de homens com educação avançada. Rostos sérios, êles debruçavam sôbre as páginas do 'Breve Curso', embora devessem saber que o livro estava cheio de mentiras e falsidades.

O chefe do círculo, que normalmente, era um dêles mesmos, começou com a pergunta:

– Bem, quem está disposto a iniciar o terceiro capítulo? Algum voluntário?

Todos abaixaram as cabeças sôbre os livros, alguns virando as páginas, apressadamente, enquanto outros fixavam os olhos na mesa como que para reunir os pensamentos com o fim de falar depois. Não houve um voluntário siquer.

– Muito bem, então seguiremos a lista, propôs o chefe e todos suspiraram aliviados.

A maioria dos chefes de círculos tinham listas alfabéticas dos companheiros e cada um dêstes sabia a quem seguia, de modo que o problema se resolvia muito simplesmente. O primeiro da lista começava a fazer um sumário do capítulo, enquanto que o seguinte lia mais adiante, sublinhando as passagens com lápis vermelho. Dessa forma, a maioria dos círculos vencia o curso, sem dificuldades.

Todos os membros do círculo de Belyavsky já haviam trabalhado no 'Breve Curso', várias vêzes e todos estavam mais que caceteados. Quando cada um havia realizado o seu dever, sentava-se olhando a janela, fumando ou apontando o lápis.

Tudo prosseguiu como era costumeiro. Os oradores seguiam-se monòtonamente, o chefe manatinha o olhar preso ao caderno, sem escutar. Era um dia de calor e todos estavam com sono, e, nêsse reino da sonolência, algo sucedeu ao Capitão Belyavsky difícil de explicar, mesmo por êle próprio.

Quanado chegou sua vez, coube-lhe discorrer sôbre a passagem que trata das campanhas anti-soviéticas das três Ententes. O tema tinha uma qualidade heroica e tinha paralelos com a guerra que terminara há pouco. Logo que Belyavsky começou a falar, o chefe ergueu os olhos sonolentos e fitou-o surpreso e, um por um, os outros começaram a olhá-lo atônitos.

Falava êle como se estivesse num comício, a voz domi nada por uma nota de convicção extraordinária, soando como uma revelação de fé, de desafio. Descreveu as três intervenções estrangeiras na Rússia Soviética, depois da revolução de 1917 e, habilmente, ligou-as com a invasão e destruição dos exércitos nazistas de 1941-5. Não resumia o 'Breve Curso', mas falava expontâneamente, com o coraação ardendo de entusiasmo. Os olhares espantados dos companheiros expressa vam essa pergunta silenciosa:

– Ficou louco? por que êsse trabalho desnecessário?

Entretanto, aconteceu que, nêsse dia, entre os frequentadores do círculo estava o instrutor da Adriinistração Política da A.M.S., ali presente como observador. O discurso de Belyavsky atraiu-lhe a atenção pois, sem dúvida, nunca ouvira alguém falar com tanta convicção nos círculos de educação política. Anotou o nome e, no dia seguinte Belyavsky foi chamado... Administração Política.

– Ocupa, disse-lhe o instrutor, estou surpreso com você, Camarada Capitão. Estive olhando sua ficha individual e vi que é um oficial exemplar, não sendo, contudo, membro do Partido. Isso não está bem. O Partido precisa interessar-lhe por gente como você...

Não, não, não... continuou êle, erguendo a mãos, como que temendo qualquer objeção de Belyavsky. Ontem você fêz um notávelnotável discurso político... Entretanto, nunca esteve a serviço do Partido. Vamos designá-lo para a tarefa de dar instrução política às espôsas dos oficiais. Isso, para começar. Depois, deve fazer seu pedido de inscrição no Partido, imediatamente. Nenhuma objeção! Compreendeu?

Belyavsky não pensava em objeções. Ser membro do Partido equivalia a uma posição sólida e de valor na sociedade soviética. Com o coração cheio de alegria, apertou a mão do instrutor, com verdadeiro reconhecimento.

As comemorações da Revolução de Novembro aproximava-se e Belyavsky, além do encargo de um círculo de educação política, recebeu a incumbência dos preparativos para as festas. Entregou-se, portanto, à atividade política e social, devotando todo o seu tempo livre. Espiritualmente parecia ter renascido, mas, acima de tudo, estava alegre porque o Partido esquecera o seu passado, porque já não era mais um lôbo solitário. Somente agora compreendia, totalmente, como sentira, com amargor, o alheiamento à sociedade.

Inesperadamente recebeu êle ordem de que seria desmobilizado e deveria voltar à União Soviética e o jovem, imediatamente, percebeu o que havia atrás dêsse comunicado. Mas, o que não sabia é que, ao retornar, seria julgado de novo. A explicação era muita simples. Não muito antes do incidente com omotocicleta, havia preenchido um dos questionários regulares que, esta vez, de acordo com novas e rígidas instruções, foi enviado aos departamentos locais do M.V.D., em todos os lugares de residência anterior para verificação. De volta de Leningrado, havia a observação: "pai condenado pelo artigo 58". Foi então êle desmobilizado e enviado a U.R.S.S. onde foi julgado por ter feito falsa declaração, o que fôra obrigado a fazer sob pena de conselho de guerra.

O atrito de Belyavsky com o Partido, através da pessoa do Major Yeroma não foi um fator decisivo na sua chamada à União Soviética. Pertencia êle à categoria de pessoas cujo destino estava predeterminado, o que logo foi demonstrado pelo fato de, quase na mesma ocasião, ter o Major Dubov sido também desmobilizado e chamado à pátria. Somente o Departamento do Pessoal da A.M.S. e o próprio Major Dubov sabiam o que se ocultava por detrás dessa ordem. Ele também tinha que retomar o seu lugar na vida normal de após-guerra.

IV

Dois homens do meu círculo de relações íntimas haviam sido cortados da vida e lancados fora. Eu os respeitava como homens e apreciava-os como colegas. Outros, também, os julgavam ótimos exemplares da nova sociedade soviética, pois nenhum tinha alguma coisa de comum com as classes velhas que, segundo o marxismo. estava destinada à eliminação. Ambos haviam sido criados no mundo soviético e eram, na melhor expressão da palavra, verdadeiros cidadãos da sociedade soviética; entretanto, foram condenados, irrevogavelmente condenados à morte. Pelo menos à morte espiritual. E havia milhões de casos semelhantes.

Isso pode ser provado muito fàcilmente. Durante os trinta anos de regime soviético, pelo menos trinta milhões de pessoas estiveram sujeitas à medidas repressivas de caráter político. Como as famílias de tôdas essas pessoas são, automàticamente, classificadas como políticamente incapazes, se supusermos que cada uma delas tivesse apenas dois parentes, pelo menos sessenta milhões de seres deveriama estar nas listas negras. Se dez milhões dêsses trinta milhões de pessoas morreram nos campos de concentração e, pelo menos, outros dez milhões ainda estão nos campos, enquanto dez milhões já cumpriram a pena e foram soltos, temos a soma de oitenta milhões de pessoas que o Estado Soviético transformou em seus inimigos ou, pelo menos, como tal os considera. Isso explica porque em cada secção do mecanismo estatal soviético existem departamentos do pessoal encarregados de investigar e verificar os questionários. Hoje não se duvida que a classe principal da nova sociedade soviética consiste de milhões de inimigos automáticos do Estado Soviético.

Esta classe invisível de inimigos, que também são escravos, existe em tôda a sociedade, de alto a baixo. Seria necessário citar exemplos? Pode-se mencionar os nomes de muitos generais da União Soviética, bem como condecorados com prêmios de Stálin, que estiveram nas prisões da N.K.V.D., e êsses nomes seriam muito conhecidos do mundo inteiro. Dos milhões de atritos pequenos entre o Estado e o indivíduo, quem pode falar?

O Estado e o indivíduo! Involuntàriamente penso em Valia Grinchuk, uma jovenzinha, uma guerrilheira que, na luta pela liberdade, pegara nas armas, combatendo bravamente. Não apenas defendera sua liberdade contra o inimigo estrangeiro, mas também subira os degraus da sociedade soviética. Ergueu-se acima da massa e tornou-se um indíduo. Nem bem havia conseguido isso, caíu nas mãos pesadas do Estado.

Seus deveres, frequentemente, a levavam à Comissão de Contrôle Aliado, onde veio a conhecer um jovem oficial estrangeiro. Não podia haver objeções a êste conhecimento, uma vez que visitava a Comissão de Contrôle durante o trabalho, mas, depois de certo tempo, as relações transformaram-se em pessoal.

Um dia, foi ela chamada à organização do Partido, sendo-lhe informado, muito amavelmente, que o Partido sabia das suas relações com o oficial aliado. Para seu espanto, foi isso tudo o que lhe disseram, parecendo mesrao que os chefes do Partido olhavam com simpatia suas relações. Mais tarde foi chamada, de novo, e a impressão, agora, era de que encorajavam êsse conhecimento.

Com o decorrer do tempo, essa amizade entre a jovem russa e o oficial aliado tornou-se mais profunda e, novamente, foi ela chamada à organização do Partido e, como membro do Partido, viu-se perante a exigência de decidir-se entre o seu amor e os interêsses do Estado.

No dia seguinte, foi levada a um hospital onde os médicos verificaram que a temperatura era elevadíssima, bem como a pressão saguínea, mas não puderam descobrir o motivo do seu estado. Passaram-se semanas sem que a jovem melhorasse.

Um dia, um velho e experimentado neuro-patologista entrou no quarto, estudou o histórico do caso, meneandoa cabeça, enquanto lhe perguntava:

– Teve algum incidente desagradável, de grande monta... na sua vida pessoal?

– Não! respondeu ela, sêcamente.

Durante mais de dois mêses permaneceu ela no hospital. Ao sair, pediu transferência para um trabalho que não a fi zesse entrar em contacto com a Comissão de Contrôle e, através de conhecidos fêz chegar ao conhecimento do seu amado que fôra chamada à Rússia. Valia possuia o coração de um soldado.


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