Gregory Klimov «A máquina do terror»

Capítulo 18. AS ASAS DE UM ESCRAVO

I

Em princípios de 1947, Miloyan, membro do Politburo e plenipotenciário extraordinário do Conselho Soviético de Ministros para a assimilação econômica das áreas ocupadas e países satélites, fêz exaustiva inspeção na zona soviética. Em seguida teve longa conferência com o Marechal Sokolovsy e o assistente econômico, o Camarada Koval.

Essa conferência discutiu os resultados da reorganização econômica da zona soviética. A reforma agrária, que fôra realizada logo depois da capitulação não alcançara qualquer efeito econômico decisivo e êsse fato não preocupou, nem mesmo surpreendeu Mikoyan ou o Marechal Sokolovsky. Com o seu auxílio, certos resultados táticos necessários haviam sido alcançados e, de modo particular, fôra lançada a base para uma ofensiva contra os cmponeses, bem como os requisitos para a coletivização final da agricultura.

Na esfera industrial, depois do processo da desmantelação em massa e da socialização das pequenas emprêsas, como 'landeseigener Betrieb' (fábricas distritais), a maior medida da A.M.S. foi a unificação prática de tôda a indústria básica da zona soviética numa enorme firma industrial conhecida como Companhias Anônimas Soviéticas. Esta medida, que fôra ditada por Moscou, recebeu especial cuidado na conferência de Mikoyan e Sokolovsly.

Em fins do verão de 1946, o Camarada Koval, assistente econômico do comandante-chefe, voltara de Moscou, trazendo novas instruções secretas. Logo depois, misteriosos documentos eram mencionados, entre murmúrios, como "Lista 216" ou "Lista 235". O número mudava constantemente, indicando o número de empresas que deviam transformar-se em Sociedades Anônimas Soviéticas. As listas eram enviadas a Moscou, para ratificação e voltavam em forma de apêndices de um decreto oficial relativo à organização de uma "Administração das Companhias Anônimas Soviéticas da Alemanha". Essa administração, que ocupava o edifício da então Companhia Askania, em Berlim-Weissensee, para sede, controlava treze companhias anônimas soviéticas nas esferas industriais mais importaantes, e incluiam elas cêrca de 250 das maiores fábricas industriais da zona soviética. Segundo os estatutos da nova firma, 51 por cento das ações eram de propriedade do governo soviético, de modo que, na prática, tôda a indústria da zona soviética ficou nas mãos russas, não sòmente pelo direito de conquista e durante o tempo da ocupação, mas para todo o sempre.

Tôdas as medidas econômicas tomadas pela A.M.S. na Alemanha, como a política econômica do Cremlin, geralmente vizam fins políticos mais remotos. O objeto desta transformação da zona soviética é prendê-la com poderosas correntes econômicas, provendo a base econômica, necessária para uma futura ofensiva política.

Mikoyan não foi o único membro do Politburo a visitar a Alemanha, nessa época. Beria, o Ministro Soviético dos Negócios do Interior, fêz igual visita de inspeção pelas terras da Europa Oriental e Alemanha Oriental. Também êle, demorou-se em longa conversa com Sokolovsky e com o chefe da Administraação dos Negócios do Interior da A.M.S., o general Serov. Essa conferência versou medidas para fortalecimento da frente interna política. A sequência dos acontecimentos era bastante lógica: o mestre da exploração econômica foi seguido pelo mestre dos negócios da exterminação.

Um dos resultados da visita de Beria a Karlshorst foi um expurgo do pessoal da A.M.S. Grande número de oficiais,, que haviam estado na A.M.S. desde o início, foi chamado à União Soviética, sendo substituidos êles por pesoas vindas de Moscou, reconhecíveis, a primeira vista, como genuinos homens do Partido. A mudança do pessoal de Karlshorst estava de perfeito acordo com os planos de após-guerra do Cremlin, preocupado em colocar tôdas as posições chaves nas mãos do Partido. Mais uma vez não se podia deixar de ficar surpreso com a diferença entre "os homens nominais do Partido" e os "genuinos homens do Partido". Quase todos os oficiais soviéticos eram membros do Partido, mas o Partido estava longe de considerá-los como "genuinos homens do Partido".

Mais de dezoito mêses decorreram desde que Karlshorst se transformara no Cremlin de Berlim. Desde então, o mundo e Karlshorst haviam sofrido muitas alterações, muitas das quais foram resultado das próprias atividades de Karlshorst como pôsto avançado da política externa soviética. Paralelamente se transformara a atmosfera interncional e em Karlshorst fomos os primeiros a ter consciência disso.

Quando as paixões políticas começaram a influir nos sentimentos nacionalistas o que o Cremlin deseja particularmente quando a corrida armamentista estiver no auge, será difícil determinar quem a começou e quem tem a culpa. Então, naturalmente, cada lado acusará o outro.

Mas, esta vez, nós, membros das fôrças soviéticas de ocupação sabíamos de uma coisa, perfeitamente não importava o que viesse, tôda a culpa das consequências recaía única e simplesmente nos ombros dos homens do Cremlin. Esta vez nós sabíamos quem começara a brincar com o barril de pólvora. Esta vez não tínhamos dúvidas da primeira e original causa do perigo de uma nova guerra.

II

Quanto mais sombria se tornava a atmosfera, mais monótona era a vida em Karlshorst. Os dias passavam lentamente, cinzentos e aborrecidos. Num dêsses dias cinzentos fui para o meu serviço de vinte e quatro horas, no Q.G., que eu tinha que fazer uma vez por mês.

O oficial de dia do Q.G. da A.M.S. deve passar o dia na sala de espera do comandante-chefe e, nêsse tempo, funciona como ajudante do marechal. A noite fica sòzinho na sala do marechal, como ajudante.

Às seis horas da tarde, como era costume, assumi o pôsto na sala de espera. O Marechal Sokolovsky estava em Potsdam, de modo que o lugar estava vazio. O ajudante saíu às sete e meia, deixando-me no pôsto, sòzinho. A fim de informar-me dos acontecimentos olhei nas pastas sobre a mesa em todos os documentos. O tempo passava imperceptívelmente, sendo interrompido apenas pelos chamados telefônicos.

À meia-noite, segundo o regulamento, sentei-me na poltrona do marechal, à sua mesa, a fim de estar ao alcance do aparelho e poder responder, prontamente, aos chamados diretos. Era muito comum que o Cremlin telefonasse no meio da noite e então a mensagem tinha que ser registrada e enviada ao destino.

Logo que me sentei à mesa, comecei a por ordem nos papéis espalhados sôbre ela e vi, que entre eles estava uma duplicata do Boletim de Informações. Êste boletim era destinado apenas ao corpo de oficiais superiores, sendo documento secreto, cada exemplar numerado. Comecei a lê-lo. As notícias eram muito esclarecedoras: era uma coleção pormenorizada de todas as coisas que a imprensa soviética cuidadosamente ignora ou mesmo nega deslavadamente. Se um cidadão soviético ousar dizer essas coisas, será acusado de contra-revolucionário, com todas as consequências. Mas isso era um boletim oficial de informações para o uso do comandante da A.M.S.

No meio da noite, resolvi telefonar a Genia. Entrei em contacto com o pôsto de Moscou e esperei longo tempo a resposta. Afinal, uma voz cheia de sono falou:

– Alô?

– Genia, disse eu, fala Berlim. Que há de novo em Moscou?

– Ah! é você? continuou a voz, fazendo ouvir um suspiro distante. Pensei que tivesse desaparecido.

– Ah! não... Não de todo. Que há de novo?

– Nada. A vida como sempre...

– E seu pai?

– Fora, de novo.

– Para onde, esta vez?

– Mandou-me um vestido de sêda, há pouco. Portanto espero que seja... Mas como vai você?

– Estou sentado na poltrona do marechal.

– Pretende vir logo a Moscou?

– Quando me mandarem.

– Ando aborrecida, sòzinha, disse ela. Virá logo?

Conversámos por longo tempo, traçando nosso futuro encontro, pensando em tudo que faríamos, discutindo planos para o futuro. Era um sonho a que recorríamos para evitar o presente. Naquele instante eu sentia não estar em Moscou e, sinceramente, queria voltar.

A noite passou. O dia chegou e com êle os generais das províncias surgiram, bem como representantes alemães da nova democracia, timidamente postados nos cantos. Pouco antes das seis da tarde, quando terminava o serviço, um engenheiro, chamado Sykov veio discutir comigo a possibilidade de uma expedição de caça, comigo. Fomos interrompidos pelo telefone. Apanhei o aparelho e respondi com a fórmula comum:

– Oficial de dia do Q.G.

Era Koval, assistente do comandante, para as questões econômicas e meu superior imediato.

– Camarada Klimov?

– Sim.

– Venha ver-me, um momento.

– Êle pediu-me pessoalmente, pensei, enquanto me dirigia a sua sala. Que pressa é essa?

Koval recebeu-me com a pergunta:

– Suponho que não saiba o motivo disto tudo?

Em seguida entregou-me uma fôlha de papel com uma ordem do Q.G. da A.M.S. Peguei-a e li:

"O engenheiro diretor, G.P. Klimov, por ser especialista altamente qualificado em economia soviética, deve ser desmobilizado do Exército Soviético e dispensado do serviço na Administração Militar Soviética a fim de voltar à União Soviética para ser aproveitado de acordo com as suas qualificações especiais.

Durante um momento não pude perceber a importância do acontecido, mas sem dúvida, êle deixava-me uma sensação de desprazer. Alguma coisa não estava muito certa. Sempre se observava uma espécie de cortesia formal com relação ao pessoal de responsabilidade; nêsses casos havia uma conversa preliminar.

– Você não pediu transferência para Moscou? pergun tou Koval.

– Não, respondi, ainda mais preocupado.

– Está assinado pelo chefe do pessoal e não houve entendimento prévio comigo, explicou Koval, encolhendo os ombros.

Cinco minutos depois eu entrava na sala do chefe do Departamento do Pessoal. Como eu tinha frequentes oportunidades para falar com o Coronel Utkin, êle me conhecia pessoalmente. Sem esperar minha pergunta, falou-me:

– Bem, posso felicitá-lo? De volta para a pátria...

– Camarada Coronel, que há por detrás disso? perguntei.

Eu estava interessado em descobrir o que havia no fundo dessa ordern inesperada. Os que trabalhavam em Karlshorst não eram chamados a Moscou sem motivos especiais. Geralmente, quando os membros da A.M.S. pediam para ser transferidos para a pátria, o Q.G. negava o pedido.

– Estou preocupado não tanto com o que diz a ordem, continuei eu, mas sim pela forma. Que quer dizer?

Utkin manteve-se calado por alguns segundos e depois falou, com relutância:

– A Administração Política está metida nisso. Cá entre nós, eu estou surpreendido por você ter ficado aqui tanto tempo, não pertencendo ao Partido.

Apertei-lhe a mão, agradecidamente. Quando me voltei, para sair, êle advertiu-me:

– Lembre-se que depois que o passe lhe fôr entregue, terá que partir dentro de três dias. Se fôr necessário, demore na transferência do seu trabalho.

Fui para casa, através das ruas vazias de Karlshorst. Por detrás das cêrcas as árvores balouçavam os ramos nus. O duro inverno alemão estava no auge; escuridão e silêncio. Um transeunte cumprimentou-me e respondi automàticamente. Não tinha pressa. Os passos eram vagarosos, hesitantes. Parecia que eu não me dirigia para casa, mas que o caminho me era novo, um longo caminho. Olhei em tôrno, respirando fortemente, sentindo o solo debaixo dos pés como nunca o sentira antes. Sensações estranhas e inexplicáveis me invadiam.

Nem bem fechara a porta do apartamento e Sykov entrou. Pelo meu rosto percebeu que algo me acontecera.

– Para onde vai ser enviado? perguntou.

– Para Moscou, respondi brevemente.

– Para que?

Sem tirar o capote, fui até a mesa e, silenciosamente, pus-me a tamborilar com os dedos.

– Mas por que? perguntou de novo.

– Não me provi do livro vermelho no devido tempo, respondi, com relutância.

Êle fitou-me, com comiseração. Em seguida, meteu a mão no bolso e retirou um pedaço comprido de cartão vermelho, girando-o nos dedos.

– Que lhe teria custarlo isso? perguntou, olhando para o cartão do Partido. Você grita a sua saudação, uma vez por semana, na reunião do Partido e, depois pode ir ao banheiro lavar a bôca.

Suas palavras causaram-me uma impressão desagradável. Instintivamente refleti que aquêle pedaço de cartão ainda deveria estar quente do calor do seu corpo. Como que advinhando meus pensamentos, êle continuou:

– Eu mesmo fiquei seis anos fora. Afinal não pude aguentar mais.

Sua presença e suas observações começavam a irritar-me. Queria ficar sòzinho. Convidou-me a ir ao clube, mas recusei.

– Vou jogar uma partida de bilhar, comentou, quando saía. Uma bola entre duas almofadas e nenhuma ideologia de permeio.

Fiquei de pé, junto à mesa, ainda com o capote. O paletó apertava-me nos ombros, fortalecendo a sensação de que estava a caminho. Tentei sentar-me, mas, de novo ergui-me. Não podia parar quieto. Algo queimava dentro do meu ser. Pus-me a andar pela sala com as mãos nos bolsos.

Liguei o rádio. A música alegre feriu-me os nervos e desliguei-o. O telefone tocou, mas não me incomodei em atendê-lo. A criada alemã preparara o jantar e estava pondo a mesa para mim. Eu nem olhei para o jantar, passeando de um lado para outro, a cabeça caída ao peito.

A ordem fizera romper a represa que há muito tempo me detinha. Dentro de mim tudo parecia estar arrazado, em redemoinho, ao mesmo tempo que algo parecia estar-se arrastando em minha direção, de muito longe, algo inexorável e sombrio.

Hoje eu precisava acertar as contas.

Hoje eu era obrigado a confessar a mim mesmo que tôda a minha vida fôra forçado por mim mesmo a acreditar numa coisa em que não podia acreditar, desde o dia do meu nascimento. A vida inteira eu apenas procurara um compromisso com a vida e se algum dos meus contemporâneos dissesse que acreditava, eu chamaria de mentiroso e covarde. Homens como Sykov acreditavam, de fato?

Pus-me a passear pela sala, os olhos fitos nas botas, que haviam percorrido o caminho de Moscou a Berlim. Lembrei-me dos anos chamejantes e fumegantes da guerra, a fonte rubra na qual o sentimento de responsabilidade pela terra natal foi despertada. Mais uma vez vi a Praça Vermelha e os muros do Cremlin iluminados pelas salvas da vitória. Dias de orgulho e de glória, quando se gritava preso pelo excesso de emoção. Aos meus ouvidos chegaram, mais uma vez, as palavras que haviam penetrado no meu peito: "Entre os primeiros dos primeiros, entre os melhores dos melhores, vocês estão hoje marchando pela Praça Vermelha".

Agora eu marchava do canto de minha sala ao outro, como um lôbo engaiolado. Sim, a guerra havia-nos feito perder o equilíbrio. Cegos pela luta pela nossa terra natal nós esquecemos muito naqueles dias. Naquela época não podia ser de outra forma, pois não havia outro jeito.

Os que haviam seguido outro caminho... Com dôr amarga lembrei-me dos primeiros dias da guerra. Estava pro fundamente grato ao Destino pelo fato de não ter a necessidade de tomar uma decisão muito difícil. Quando chegou minha vez de vestir o capote militar, sabia perfeitamente que o caminho dos russos não era com os alemães. E lutei até o fim. Lutei por algo em que não acreditava. Lutei para me consolar com esperanças.

Agora eu não mais alimentava essas esperanças. Agora eu percebia que havíamos errado, que não havíamos realizado nossa tarefa, mas havíamos confiado em promessas. Era por isso que não queria tirar o capote. Ainda não era muito tarde!

De novo nuvens ameaçadoras cobriam o horizonte. Se voltasse a Moscou, mais uma vez me veria frente à mesma decisão amarga que a de junho de 1941. Mais uma vez eu teria que defender algo que não desejava defender.

Mais ainda, agora eu estava convencido de que os homens do Cremlin levavam meu país para a estrada da perdição. linguém nos ameaçava; ao contrário, nos estávamos ameaçando o mundo inteiro. Isso era um jogo perigoso e desnecessário. Se ganhássemos, que aproveitaríamos com isso? Se fossemos derrotados, quem seria o culpado e quem pagaria os débitos do Cremlin? Cada um de nós!

Eu atravessara dias de ansiedade pelo meu país, batalhas e vitórias, assistindo, também, com os próprios olhos, tôda a amargura da derrota. A Alemanha no pó era um bom exemplo disso. A Alemanha estava definhando na convulsão da fome e da vergonha – mas onde estavam os culpados! Eram culpados apenas os líderes ou a nação inteiro?

Se a guerra arrebentasse, seria também muito tarde. A guerra tem as suas leis próprias. Aquêles que o Cremlin transformara em inimigos nos considerariam inimigos. Não queriam a guerra, mas, se a guerra era inevitável, êles a aceitariam para defender os seus próprios interêsses. Portanto o que nos restava fazer: ser de novo uma ficha nas mãos dos jogadores criminosos?

III

Nos próximos dias comecei a entregar meu trabalho, pouco a pouco, pois, seguindo o conselho do Coronel Utkin, deliberadamente atrasava o processo. Sem ainda saber porque eu tentava ganhar tempo e, continuadamente o atormentador pensamento e a mesma pergunta inexorável me oprimia: que devia fazer?

Num dêsses dias, desci na estação do metrô, em Kurfurstendamm, no setor britânico. Estava vestido em roupas civis e as botas faziam barulho nas poças da neve derretida. As ruas familiares pareciam estranhas e inimigas. Caminhava sem destino, pousando o olhar nas placas de nomes nas entradas das casas, enquanto meu dedo brincava com o gatilho da pistola no bolso do capote.

Afinal escolhi a placa e entrei na casa, um lugar luxurioso, com uma larga escada de mármore. Agora as escadas estavam na penumbra, e um vento frio soprava pelas janelas sem vidraças. Com alguma dificuldade encontrei a porta, que procurava e toquei a campainha. Uma jovem, com um casaco sôbre os ombros, abriu a porta.

– Posso ver Herr Diels? perguntei.

– Qual o assunto? perguntou ela, amavelmente.

– Assunto particular, respondi brevemente.

Ela fêz-me entrar e pediu-me que esperasse um pouco. Enquanto eu me sentava na sala de visita do advogado, fria e escura, a jovem desapareceu. Minutos depois voltava para dizer:

– O senhor doutor o receberá.

Entrei numa sala enorme e sem calefação. Um cavalheiro idoso, com óculos de aros dourados, ergueu-se da mesa para receber-me.

– Em que posso serví-lo? perguntou, oferecendo-me uma cadeira.

As mãos geladas eram esfregadas uma nas outras, pois, sem dúvida, estava aguardando algum caso comum de divórcio.

– Meu pedido é um pouco fora do comum, doutor, disse eu que, pela primeira vez, em conversa com alemães, me sentia um pouco confuso.

– Oh! não precisa ter constrangimentos, disse-me num sorriso profissional.

– Sou oficial russo, falei vagarosamente, baixando a voz, sem o perceber.

O advogado sorriu amàvelmente, a fim de indicar que estava profundamente honrado com minha visita.

– Ainda outro dia um oficial soviético veio ver-me com uma moça alemã, disse, sem dúvida tentando encorajar-me.

Quase nem ouvi sua explicação do motivo pelo qual o outro oficial russo viera vê-lo, pois pensava, com aborrecimento:

– Foi um mau comêço...

Mas agora era muito tarde para voltar atrás e resolvi falar tudo.

– Fui desmobilizado e enviado para a Rússia. Não vou aborrecê-lo com explicações sôbre o motivo e outras coisas. Em resumo, quero ir para a Alemanha Ocidental.

O sorriso desapareceu do seu rosto. Durante alguns momentos não soube o que falar e, afinal, perguntou, prudentemente:

– Ah!... e que posso eu fazer?

– Preciso entrar em contacto com os aliados, disse eu. Quero pedir asilo político. Eu mesmo não o posso fazer. Se fôr visto com qualquer oficial aliado ou se me virem sair de um gabinete aliado... é um grande risco para mim. Portanto peço-lhe que me auxilie.

O silêncio teve a duração de alguns minutos. Notei, então, que Herr Diels se comportava de maneira estranha, remexendo-se, inquietamente, na cadeira, procurando algo no bolso e rebuscando os papéis sôbre a mesa.

– Sim, sim... Compreendo, murmurou. Eu, também, sou vítima do regime nazista.

Retirou uma caixa de guardar cartas, dela tirando, afinal, a que procurava e, com dedos trêmulos, entregou-me um papel que fôra reforçado nas dobras, evidentemente em virtude do seu grande uso.

– Como vê, tenho até um certificado atestando êsse fato, falou.

Examinei o documento que declarava que o possuidor era vítima do Nazismo e quase um comunista. Novamente tive a sensação desagradável de que viera bater em endereço errado. Compreendi que o advogado receava algo e tentava proteger-se.

– Senhor doutor, para ser franco, preferia tratar, nêste momento, com o nazista mais exaltado, disse eu, enquanto lhe devolvia o documento.

– Quem o recomendou vir aqui? indagou relutantemente.

– Ninguém. Arrisquei a sorte. Tenho que agir sabendo que não posso confiar em ninguém nos arredores mais próximos. Espero que o senhor possa auxiliar-me, mas, se por qualquer motivo não puder, não vejo nenhuma razão para prejudicar-me.

Herr Diels mergulhou em pensamentos profundos. Finalmente pareceu chegar a uma decisão. Voltando-se para mim, disse:

– Mas diga-me, que segurança posso ter de que o senhor...

Sem olhar no meu rosto, começou a girar o lápis, conti nuadamente, na mão, para depois, como que resolvendo alguma coisa, erguer os olhos e falar, um pouco hesitantemente:

– ...que o senhor não é agente da... da G.P.U.?

O antigo nome dessa bem conhecida organização vibrou ruidosamente no meu ouvido. Aparentemente os alemães não conheciam ainda o seu nenie atual. A despeito da seriedade da situação, sua pergunta fêz-me sorrir. A mesma coisa que eu temia nos outros, era eu suspeitado. Apenas encolhi os ombros, dizendo:

– Ainda não tive oportunidade em pensar nisso, senhor doutor. O que me preocupa no momento é salvar minha cabeça da... G.P.U.

Êle continuou sentado imóvel, pensando em voz alta:

– O senhor fala alemão muito bem... muito bem... E até tudo isso é tão anormal...

Em seguida, fixou o olhar no meu rosto como que tentando ler-me os pensamentos, falando afinal:

– Bem! Sou velho e tenho experiência com os olhos. Creio que está falando a verdade. Aonde deseja ir?

– À zona americana.

– Mas por que a zona americana? perguntou, erguendo os sobrolhos, surpreso.

– Senhor doutor, quando um homem dá um passo baseado em considerações políticas, é natural que procure refúgio no inimigo mais forte do seu povo, do qual êle quer escapar.

– Sim, mas aqui é o setor britânico. Não tenho contacto com os americanos.

Percebi que isso era um preparativo para recusa e tentei mais uma vez:

– Talvez possa recomendar-me a um dos seus colegas que tenha contacto com os americanos.

– Sim, posso fazer isso, respondeu, pegando a lista telefônica, e, depois de procurar um nome, ergueu-se pesadamente da mesa, dirigindo-se à porta, finalizando: queira desculpar. Vou escrever-lhe o endereço.

Entrou na sala de espera e ouvi-o conversar com a secretária. Em seguida, conversou ràpidamente com outro visitante. O telefone tocou mais de uma vez. Alguém veio e se foi.

Os minutos custavam a passar. Fazia muito frio na sala não aquecida e comecei a tremer. Dominava-me a sensação de dependência total da integridade de alguém que me era um completo estranho. Afundei-me na poltrona, puxando o capote de modo a agasalhar-me, metendo a mão direita no bolso. Destravei a pistola e voltei o cano em direção da porta. Se uma patrulha militar soviética entrasse eu abriria fogo sem tirar a mão do bolso.

Afinal o advogado voltou, entregando-me um pedaço de papel, onde havia um endereço, escrito à máquina. Não pude deixar de pensar se os alemães sempre usavam máquina de escrever por prudência ou por hábito.

Suprimindo um suspiro de alívio, fui para casa. Os bondes e os automóveis faziam barulho na noite invernosa e escura. Pessoas passavam apressadas em direção ao lar. Eu sentia uma enorme sensação de solidão. Baixando o quépi sôbre os olhos, entrei no metrô.

Depois de longa caminhada por ruas desconhecidas, no meio da noite, encontrei o enderêço dado por Herr Diels: uma casa nas vizinhanças da cidade. O Dr. von Scherr ocupava importante posição e não me foi fácil conseguir uma entrevista pessoal com êle. Quando, afinal, fiquei sòzinho com êle, no seu gabinete, e lhe expliquei o motivo da visita, imediatamente atacou o assunto. Tirando a fotocópia de um documento da gaveta da mesa, mostrou-ma. Declarava ela que tinha relações oficiais com o comando central soviético. Identifiquei, imediatamente, os selos e as assinaturas familiares. Meu rosto expressou meu sentimento, de tal forma, que êle não pôde deixar de sorrir.

– Que segurança posso ter de que o senhor não é agente desta... bem, o senhor sabe! perguntou, piscando-me e batendo-me, amigavelmente, nos joelhos.

Apenas encolhi os ombros.

O Dr. von Scheer demonstrou ser um homem de negócios. Depois de breve conversa, concordou falar com alguns americanos, que conhecia, pedindo-me que voltasse dentro de dois dias. Fui para casa pensando se, naquele instante, não estava telefonando ao comando soviético a respeito da minha visita.

Ao descer de um bonde para o outro, avistei um polícia alemão, não muito longe. Sem saber muito bem minha intenção, dirigi-me a êle, perguntando onde poderia encontrar o consulado americano. Evidentemente percebendo que eu não era alemão, ergueu a lanterna iluminando-me da cabeça aos pés.

Na Alemanha de após-guerra, estrangeiros que não usassem uniforme aliado ou não possuissem passaportes aliados estavam fora da legalidade. Eu mesmo, muitas vezes, vira essas pessoas perambulando, sem destino, por Berlim. O polícia, sem dúvida, tomou-me por um dêles, fitando-me, suspeitosamente, acostumado como estava com êsses indivíduos.

Não damos essa informação, respondeu afinal, iluminando-me com a lanterna, de novo, sem dúvida pensando em pedir-me os documentos.

Ainda bem que não o fêz, pois eu estaria em situação terrível, já que a polícia alemã devia prestar continência aos oficiais soviéticos.

O policial afastou-se, deixando em meu peito uma sensacão de falta de ar. Esse incidente marcava o início do caminho que resolvera seguir. Aonde ia não teria nem uma pistola nem um documento válido para assegurar-me um lugar na vida.

Quando abri a porta do meu apartamento em Karlshorst, ouvi tocar o telefone, mas não me apressei em responder. Não queria ver nem falar com ninguém. Precisava tempo para pensar em tudo que acontecera e no futuro que se aproximava.

Mais uma vez comecei a marcha incessante de um canto a outro da sala. As tentativas de entrar em contacto com os aliados haviam sido inúteis. Não era tão simples como eu pensara. Apenas um resultado se me tornara evidente: agora via, com clareza, que precisava agir por minha conta e risco.

Enquanto percorria a sala, revende minha conduta durante os últimos três dias, o que eu começara a fazer me parecia uma estupidez enorme. Eu não podia perder o senso da realidade. O pensamento poderoso do rompimento com o passado dominara-me demasiadamente. Eu me separara violentamente da vida passada e, agora, estava num mundo novo como um gatinho cego. A rejeição da metade do mundo fizera-me criar a idéia de que a outra metade era imaculada. Era preciso que encarasse os fatos com sobriedade.

Eu me considerava engenheiro, esquecendo-me que era oficial do Estado Maior Soviético, que fora treinado nas escolas superiores do Cremlin. Mesmo nessa situação podia fazer uma entrada triunfal em Moscou, viajar durante um mês ou mais, para depois assumir o pôsto de adido militar, comandar um corpo de agentes secretos, comprar e vender aquêles que eu acabara de procurar pedindo refúgio. E eu, que não confiava em ninguém, estava exigindo conriança de mim mesmo. Quem me acreditaria, quando eu mesmo não sabia o que se passava comigo? Eu estava cônscio apenas de uma coisa: uma das molas quebrar e o mecanismo estava parado. Tinha eu o direito de merecer confiança? Eu, um lôbo errante de Stálin?

Andando pelo quarto, ouvi as palavras:

– Estupidez imperdoável, Camarada Klimov!

Espantei-me ao perceber que estava falando em voz alta.

Pensar em entrar em contacto com os aliados! Ainda bem que nada resultara disso! Eu devia saber, melhor do que os outros, as regras da guerra secreta. O outro lado recebia apenas os que haviam conquistado confiança. Eu sabia exatamente como se devia conquistar essa confiança. Um homem interessava-os na medida das vantagens que proporcionasse. Se era considerado suficientemente estúpido, era empregado para fins de propaganda e, afinal, atirado a uma pilha de lixo. As vêzes, refugiados são trocados por agentes que foram presos. Tudo é feito silenciosamente, sem barulho. Que caminho queria eu seguir?

– Você não aprendeu bem o que lhe ensinei, Camarada Klimov! ouvi dizer a voz do Coronel Biyasi aos meus ouvidos.

Eu sabia que o serviço secreto soviético, frequentemente, envia agentes para o Ocidente, travestidos de refugiados. São disfarçados tão bem que permanecem a salvo durante anos. O Ocidente conhece muito bem êsse estratagema. É verdade que instruções determinaram que, geralmente, não se empregue êsse meio, pelo fato de que os russos provocam suspeitas; de outro, o regime soviético confia pouquíssimo no seu próprio povo. Mas isso era um detalhe que o Ocidente não conhecia.

O rompimento interior com o mundo de mentiras havia apressado um desejo enorme pela verdade. Eu buscava a verdade, mas para que precisava eu da confiança dêles? Queria apenas uma coisa: ficar em paz. Não tinha a menor idéia do que fazer em seguida. Tudo que havia conseguido, até então, era a renúncia do passado. Na minha alma existia, agora, um grande vácuo. Eu precisava encontrar um lugar onde encontrar novo sentido da vida. Vagarosa, mas firmemente, chegava eu à decisão de que precisava desaparecer, perder a identidade – até encontrar outra nova.

Eu delineara a linha separatória do passado, mas não havia pensado no futuro. Minha primeira tentativa de entrar em contacto com o outro mundo obrigar-me a pensar nisso e agora eu tentava sistematizar todas as possibilidades que me eram abertas.

Como estava desmobilizado, estava livre do meu juramento e, segundo as regras da etiqueta internacional, podia ir para onde desejasse. Desejava renunciar ao meu passaporte soviético e tornar-me um emigrado político apátrida. Entretanto, nunca aconselharia a um companheiro meu a tomar êsses passos. Se desejar tornar-se emigrado político, deve renunciar o passaporte soviético, mas nunca o seu país. Isso quer dizer que renuncia a todo apôio legal de um Estado poderoso. A gente se vê nu e desarmado nêsse mundo imperfeito, governado apenas por que é forte, que sua força se origine de armas de fogo ou dinheiro ou tanks. Hoje o Cremlin ergueu o mundo inteiro contra si. Ocultando a desconfiança e o mêdo, o povo do mundo exterior sorrirá hipòcritamente e apertará as mãos daquêles que possuem passaportes soviéticos, mas desabafará seus sentimentos em você, o emigrado político, porque não o tem. Eis o aspecto da emigração política.

A vida numa terra estranha não é fácil. Vi exemplos vivos. Em Berlim, com frequência encontrei certas pessoas que mereciam a maior comiseração. Falavam russo, mas tinham receio de conversar comigo. As vêzes olhavam meu carro, quando eu ia ao teatro e ficavam agradecido quando lhes dava um maço de cigarros. Eis outro aspecto de emigração política.

Até depois da meia-noite fiquei a passear pelo quarto. A casa estava quieta como um túmulo; Karlshorst estava adormecida. Em tôrno de mim estava o infinito mar de um mundo estranho, cuja respiração fria e indiferente eu sentia. Afinal deitei-me na cama, sem despir-me, a pistola debaixo do travesseiro, adormecendo então.

IV

Passaram-se vários dias. Todo esse tempo eu tinha uma vida dupla. A primeira parte do dia, ficava em Karlshorst, transferindo meu trabalho, preparando os papéis a fim de poder voltar a Moscou, recebendo felicitações dos meus conhecidos. Tinha que dar a impressão de estar satisfeito por voltar para a pátria. Troquei enderêços, prometia escrever de Moscou. Na segunda parte do dia, andava pela Berlim invernosa, visitando meus amigos alemães, cautelosamente sondando o terreno. Eu precisava descobrir o caminho pelo qual se podia ir para o Ocidente.

Dia após dia prossegui, sem resultado. O período normal de preparativos para a partida para Moscou era de três dias e eu já ficara duas semanas.

Com o decorrer do tempo, era-me extremamente difícil representar êsse jôgo duplo. Cada dia minha estada em Karlshorst se tornava mais perigosa. Eu precisava estar alerta com alguma demonstração de força e tomava as medidas de precaução. Como muitos oficiais soviéticos na Alemanha, possuia eu uma coleção de armas tomadas. Pensando nelas, tirei uma pistola automática alemã detrás do armário e, depois de carregá-la, dependurei-a atrás da porta, cobrindo-a com o capote. Em seguida pus vários pentes de balas numa caixa bem à mão, para o caso de alguma tentativa de prisão no quarto. Em seguida, carreguei meu parabelum, minha pistola de oficial, que guardara desde os dias de combate.

No dia seguinte, saí de Berlim, parei o carro num bosque cerrado e comecei a experimentar as armas, metòdicamente, como que treinando. Os estampidos curtos das automáticas quebravam o silêncio gelado da noite de inverno. As balas do parabelum partiam os pinheiros ainda tenros. Não devia haver motivo de desânimo! Fazer qualquer coisa, menos sentir-se infeliz. Eu não pensava muito, apenas temia um esgotamento.

Tôda noite, depois das longas e infrutíferas caminhadas por Berlim, eu voltava para casa cansado e deprimido, mergulhado em apatia. Evidentemente nada mais me restava senão aventurar-me para o Ocidente, perdendo-me no meio da multidão de refugiados alemães.

Sentei-me à mesa, sem desejo de beber ou comer, ansiando, terrívelmente, por ter alguma criatura viva com quem pudesse trocar minhas idéias. Sentia-me terrívelmente cansado e exausto. Súbito, lembrei-me que não havia limpado as armas, depois do passeio ao bosque. A fim de fugir aos pensamentos, comecei a por óleo na pistola e isso aliviou-me um pouco.

A noite espiava pela janela. O quarto estava imerso na semi-escuridão. A única luz era a do quebra-luz, e à sua luz amarelada a pistola luzia friamente. O brilho do metal ser vida atraíu-me e fiquei longo tempo a contemplá-lo.

Tentei afastar o olhar em tôrno. Uma figura agachada, de pé num dos cantos da mesa, prendeu-me a atenção. Justamente onde a luz e a escuridão se encontravam, um macaco negro estava curvado, curvado e contemplando-me.

Voltei os pensamentos para o futuro, mas, diante de mim jazia enorme vácuo. Vi tudo que teria de renunciar da vida passada; precisava perder a identidade e esvair-me no nada.

No nada... Talvez houvesse um meio mais simples de conseguir isso. Fitei o cano luzente da pistola, peguei-a, brincando, automàticamente, com a trave... Era tão simples...

O vazio dos dias que seguiam enchia-me de opressão: A vida tôda cumprira o dever, mesmo quando duvidara que fôsse meu dever. Eu considerava o dever como resultado da fé na infalibilidade do princípio fundamental e procurara, obstinadamente, o ponto central da existência racional.

Há sentimentos ocultos tão profundamente no coração que a gente não confia em contá-los. Eu tinha o destino da Alemanha a minha frente e agora, estava convencido que um destino semelhante me aguardava na pátria. Conhecia os criminosos que governavam o país para a perdição e não desejava compartilhar dos seus crimes. Eu queria partir para poder combatê-los, depois. Não queria admitir êsses pensamentos, pois me pareciam traição, e, entretanto, trair um traidor é ser fiel ao princípio fundamental. Matar um assassino é um feito digno de elogios.

Acendi outro cigarro, com a ponta que se acabava e ati rei-me à cadeira. Na bôca havia uma sensação amarga e desagradável. No silêncio gelado as palavras martelavam monòtonamente minha cabeça:

– Não basta amar o seu país e a liberdade. É preciso lutar por êles. Agora você não vê outra possibilidade de lutar a não ser entregando-se ao outro campo e lutar de lá. Esse é o caminho de volta à pátria.

V

No décimo sétimo dia recebi o passe para atravessar a fronteira, válido por três dias, e, antes do fim do terceiro dia, deveria atravessar a fronteira soviética em Brest-Litovsk. Sucedesse o que fosse, nao podia permanecer mais do que três dias em Karlshorst.

A penumbra invadia Berlim, quando, após outro dia de caminhadas inúteis, resolvi visitar um conhecido alemão, o diretor de uma fábrica que eu visitara, de vez em quando, a serviço. Durante essas visitas eu tivera conversas sobre política, com muita franqueza, com êle. Essa noite, também, ràpidamente nos pusemos a discutir o futuro da Alemanha e eu expressei a idéia de que os alemães eram muito otmistas, nêsse ponto.

– Vocês subestimam o perigo, disse eu. Vocês esperam cegamente, o fim da ocupação. Mas mesmo se as fôrças sovieticas forem retiradas da Alemanha, pouca modificação haverá na situação. Antes dêsse dia, a Alemanha estará atada pés e mãos, sendo vendida por atacado e a longo prazo.

– Por quem? interrogou o diretor.

– É para isso que há o Partido Unitário Socialista (S.E.D.) e a Polícia Popular.

Eu sabia que, recentemente, êle ingressara no S.E.D. e que minhas palavras não lhe seriam agradáveis. Ele olhou-me de lado, calou-se por alguns instantes e depois falou, vagarosamente:

– Muitos membros do S.E.D. e da Polícia Popular pensam de modo diferente do que as autoridades de ocupação desejam.

– Pior então, se pensam uma coisa e fazem outra.

– No momento, não podemos fazer outra coisa. Mas quando chegar o instante decisivo, pode crer-me, o S.E.D. e a Polícia Popular não farão como Moscou espera.

– Desejo-lhes sucesso! disse eu, sorrindo.

Depois de outro breve silêncio, o diretor voltou a conversa sôbre outro assunto:

– Bem, e como vão as coisas, no que lhe toca?

Cansado e frio, apenas acenei a mão, suspirando:

– Estou de volta a Moscou...

Sem dúvida êle notou a desilusão na minha voz e olhou-me, surpreso.

– Não está contente em voltar para a pátria? No seu lugar eu...

– Estou disposto a trocar de lugar com o senhor... respondi.

Êle olhou-me ràpidamente, interpretando as palavras do modo que lhe agradavam:

– Então gosta da Alemanha mais do que da Rússia?

– Poderia gostar, se não fôsse oficial soviético, repliquei, evasivamente.

– Os conquistadores sempre invejam os vencidos! observou êle, sacudindo a cabeça, pensativamente e erguendo-se da cadeira para começar a andar pela sala.

Súbito, êle se deteve a minha frente e indagou:

– Então por que não fica aqui?

– Onde é aqui? perguntei indiferentemente.

– Ora, ir a uma das outras zonas! exclamou, fazendo um gesto vago, surpreso por eu não ter pensado nessa coisa tão simples.

– Mas é assim tão simples? perguntei aguçando as orelhas mentais, mas, exteriormente demonstrando despreocupação.

Ele nada falou, durante certo tempo e, depois, aparentemente chegando a uma decisão, voltou-se e falou, em voz baixa:

– Se quiser ficar na Alemanha, nada é mais simples do que atravessar a fronteira verde.*

* Fronteira verde – frase comum para a travessia ilegal da fronteira.

Pus-me à escuta, mais atentamente, indagando:

– Talvez, mas qual é a atitude americana, se a gente atravessar?

Êle fez um gesto de desprêzo.

– Oh! pode cuspir nos porcos! Não são melhores do que...

E mordeu os lábios.

Sorri involuntàriamente, pois tinha a impressão de que êste diretor, êste membro do Partido Unitário Socialista, estava disposto a ir até o extremo de reduzir o Exército Soviético a uma única unidade combatente! Conhecia-a bem; não tinha motivos para suspeitar de que me provocava. Continuei silencioso enquanto que êle, ansioso por conquistar-me, que falasse um pouco mais!

– Tenho relações na Turingia, prosseguiu. Se quiser, posso dar-lhe cartas de apresentação a pessoas de confianca, que, de boa vontade o auxiliarão a passar para o outro lado.

– E os documentos?

Êle encolheu os ombros.

– Hoje cada terceiro homem alemão tem papéis falsos.

– Onde pode consegui-los?

– Conheço um homem que terá prazer em auxiliá-lo nisso. Por falar nisso, é oficial da Polícia Popular.

Agora resolvi mostrar a mão. Mudei de tom e minhas palavras soaram fortes e mesmo duras.

– Senhor diretor, deve perdoar minha reserva. A questão que estamos discutindo, há muito foi resolvida. Se não o encontrasse não teria outra alternativa senão ir para o Ocidente, por mim mesmo.

Ele ficou calado, alguns instantes e disse, depois:

– Mesmo quando tinha apenas relações comerciais com o senhor, percebi que era diferente dos outros. Estes só têm uma palavra "entregue, entregue". (Ele empregava a palavra russa "Davai! Davai!).

Descemos aos pormenores e êle prometeu arranjar-me documentos, no caso de eu achar necessário ficar em Berlim, evitando a possibilidade de ser detido na estrada. Depois de combinar novo encontro, no dia seguinte, saí da casa, para a rua. Estava escuro e quieto, tão frio como duas horas antes, mas agora eu não sentia o frio e o ar parecia-me ter uma frescura vital.

No dia seguinte, foi ao encontro. Com a verdadeira confiança alemã, pôs um cartão de identidade alemão, na mesa, a minha frente. A janela estava uma jovem loura alemã, com aspecto militar, estava parada. O diretor apresentou-nos. Dois homens, vestidos de civil, cumprimentaram-se, unindo os calcanhares por hábito antigo.

Preenchemos o cartão de identidade. Um sorriso amargo perpassou por meus lábios ao ler o meu novo nome, pois o meu cão pastor alemão era chamado assim. Pela primeira vez na vida tiraram-me as impressões digitais. Sobre a fotografia foi calcado um carimbo da polícia alemã. Tive a impressão de que depois de carimbá-lo, o alemão olhou-me com outros olhos.

O oficial da Polícia Popular foi tão longe na sua amabilidade que se prontificou a acompanhar-me até a fronteira. Já havia conseguido alguns dias de licença e aproveitaria a oportunidade de visitar os parentes na Turíngia.

Para evitar qualquer contingência desagradável, resolvi levar comigo um das velhas autorizações oficiais para visitar a Turíngia, que declarava estar eu viajando a serviço especial do Marechal Sokolovsky. Se a polícia alemã examinasse-me os papéis, na estrada veriam os documentos soviéticos que tinham o mesmo asterisco nêles como de uma serpente num coelho. Se uma patrulha soviética me detivesse, no carro estaria um homem que perdera sua identidade.

Combinámos que o oficial da polícia iria de carro até fora da Karlshorst, a uma hora do dia seguinte, e então me telefonaria.

Quando eu me despedia do diretor, êle perguntou-me:

– Mas diga-me por que, na verdade, o senhor, um oficial soviético, resolveu voltar as costas à União Soviética?

– Pelo mesmo motivo pelo qual o senhor, membro do S.E.D. resolveu ajudar êsse oficial soviético, respondi, apertando-lhe a mão.

VI

No dia seguinte, saltei da cama antes que o dia já tivesse rompido. Sentia um influxo tremendo de fôrça e energia desusada. Hoje sucedesse o que sucedesse, tinha que sair de Karlshorst. Já haviam decorrido vinte dias depois que recebera aquela terrível ordem. Meu passe de fronteira expirava hoje e, antes que se esgotasse o prazo, deveria estar em Brest-Litovsk. Se fosse encontrado em Karlshorst, teria grandes dificuldades em explicar a presença. Cada minuto desnecessário, que ali permanecia, aumentava o perigo.

Eu havia comprado passagem e reservado lugar no trem de Moscou. Antes de sair de Berlim, teria que comparecer ao comandante militar na estação Schlesische e registrar a partida. No momento, precisava deixar o apartamento num estado que indicasse ter eu partido para Moscou. Fiz os preparativos finais. Acendendo o fogão, destrui o conteúdo da mesa. Dominava-me inexplicável sensação de liberdade. Pacotes de documentos, autorização com o carimbo da A.M.S. foram lançados ao fogo. Retratos meus dissolviam-se nas chamas: fotografia minha no Reichstage em ruínas, entre as estátuas de mármore da Siegesallee, no Jardim Zoológico, com o Marechal Zhukov e o General Eisenhower no aeroporto de Tempelhof. Cartas de amigos queridos e amados foram consumi dos até se transformarem em cinzas. Meu último laço espiritual com o passado desaparecia na fumaça. Fui tomado de um desejo de destruição. A sensação de que me separava de tôda a vida passada, juntamente com o vazio absoluto do futuro, deixava em mim apenas um desejo agudo: destruir tudo com as próprias mãos. Nem mesmo me ocorreu que êsses documentos e papéis pudessem, em tempo futuro, ser-me úteis, que seria melhor guardá-los bem. Era-me indiferente o que acontecesse no futuro. Hoje era um homem que perdera a identidade, um homem sem passado, sem nome, sem pátria.

Sentei-me à mesa e escrevi algumas cartas que pretendia por no correio de Karlshorst. Com tôda a probabilidade nunca teria outra oportunidade de escrever a essas pessoas. Cada carta consistia de apenas uma breve sentença: "Hoje sigo para Moscou", juntamente com um último cumprimento e minha assinatura. Em tôdas as minhas cartas pessoais minha assinatura sempre revelava o estado em que escrevi. Hoje a assinatura era clara, firme, segura como uma sentença judicial. Contaria tudo aos que recebessem as cartas.

Meu cérebro examinou tôdas as possibilidades de fracasso dos planos e em tudo que seria feito, em cada caso. Possuia bastante armas e balas. A única coisa certa era que não seria apanhado vivo.

Barbeei-me e vesti-me com cuidado fora do comum, até mesmo perfumando o lenço. Naquele momento compreendi porque os marinheiros têm o costume de vestir a melhor cueca e uniforme quando entram em combate. Os longos dias de conflito interior, de tormentosa procura de uma saída, da consciência do perigo contínuo, haviam deixado os seus vestígios. Agora sentia que os nervos estavam a ponto de rebentar. Sabia que mais cedo ou mais tarde haveria uma reação, uma descarga de tensão. Eu precisava ir até a fronteira, atravessá-la e, depois, poderia deitar-me e fechar os olhos. Lá seria indiferente ao mundo inteiro. De um modo ou de outro, naquele ponto, eu seria apenas um cadáver, ambulante ou morto.

Consultei o relógio e, de súbito, tive um pensamento alarmante: suponhamos que o meu guia mudasse de idéia ou tivesse mêdo de dirigir-se até o Cremlin de Berlim? Então não haveria outra coisa a fazer senão sair, meter as mãos no bolso e seguir para o ocidente, com o auxílio de um mapa. Mas, de novo, pensei que tudo seria decidido e isso me confortou.

Com o capote aos ombros, comecei a andar, mais uma vez, de um canto para o outro. A sala estava fria e vazia. As passadas soavam fortes no soalho nu. O relógio bateu doze. Ainda uma hora de espera. Todos os pensamentos haviam-se esvaido. Apenas esperava o toque combinado.

A campainha soou agudamente, na porta e o som atravessou o silêncio tenso. Fiquei parado, escutando. Durante dias não atendera ao telefone, nem mesmo abrira a porta a visitantes. A campainha soou de novo, longa e insistentemente. Pus a mão no bolso do capote e escutei. A campainha soou ainda mais imperativamente. Com passo deliberadamente vagaroso, a mão ainda no bolso, fui abrir a porta, fazendo-o com a mão esquerda.

No crepúsculo cinzento do dia hibernal, vi um homem do M.V.D. Olhei-o, sem fixar-lhe a imagem, sentindo o cano da pistola que, vagarosamente, se levantava dentro do bolso. O homem ficou calado, imóvel. Fiz um esforço e olhei-o no rosto, para então compreender que era Andrei Kovtun, que não entrou, como era seu hábito, ficando parado, como que se resolvendo.

– Posso entrar? perguntou afinal.

Não respondi. Como soubera que ainda estava ali? Para que viera? Não queria que ninguém visse o apartamento, naquele momento, pois havia muita coisa a contradizer a impressão de um homem que partia para Moscou. Olhei-o, de novo. Tôda a sua face exprimia uma pergunta muda, fora do comum.

– Entre! disse eu, brevemente.

Coloquei-me de tal forma que êle poderia ir apenas ao meus estúdio e êle avançou, tentando não olhar em volta. Seus passos eram vacilantes, irresolutos. Lancei rápido olhar pela escada e fechei a porta. A pesada pistola de novo bateu na cocha, de modo que resolvi colocá-lo no bolso da túnica.

Andrei sentou-se, pesadamente, na sua cadeira costumeira. Eu não sabia que dizer-lhe e liguei o fogão elétrico, simplesmente para fazer algo. Ao assim fazer, olhei pela janela e vi que o seu carro estava vazio.

– Então você vai partir? perguntou êle, num tom peculiar.

– Sim.

– Quando.

– Hoje.

– E não quis dizer-me adeus?

Fêz-se um silêncio doloroso. Não esperando minha resposta, êle reclinou-se no espaldar da cadeira, olhou o teto e cerrou os olhos. Estava sentado de capote e quépi, sem nem mesmo tirar as luvas. Apenas agora me ocorria que não havíamos apertado as mãos.

Olhei o relógio, o telefone e, de novo Andrei. Não o via há muito, desde a nossa viagem a Moscou, tendo mesmo a impressão que êle me evitava. Somente agora percebia como havia mudado muito. O rosto estava enrugado, envelhecido; a pele brilhante estava esticada na fronte. Os traços eram de uma pessoa perenemente doente, sem cura. Todo o seu aspecto demonstrava cansaço e desesperança.

Os minutos passavam. Ele continuava sentado, sem mover-se, os olhos fechados. Espiei pela janela, à rua, e, sem saber que fazer, bati com o pé no chão.

– Estou atrapalhando? perguntou êle baixinho.

Pela primeira vez percebi um tom de incerteza, quase que desespero na sua voz. Senti uma onda de piedade, pois era apenas uma sombra de homem. Mas não confiava nêle; seu uniforme do M.V.D. não o permitia. Olhei a rua, de novo. Se me viessem buscar, agora, Andrei receberia a primeira bala.

A campainha soou, de novo, um toque incerto e breve. Somente um estranho tocaria assim. Fui abrir a porta e vi duas figuras pequenas, mudas, de pé – rostos infantis, brancos, as mãos azuladas de frio. Crianças refugiadas.

– 'Khlepa' – a palavra russa que significa pão soou estranhamente distorcida nas bôcas dessas crianças alemães. 'Khlepa', a palavra foi repetida baixinho.

Nos olhos seus não havia pedido, nem expectativa, apenas o desamparo infantil. Senti a garganta apertar-me. Essas figuras miseráveis pareciam uma premonição espectral do que me aguardava.

Sem falar, convidei-o a entrar, com um gesto, fui buscar a sacola militar, na cozinha, enchendo-a de tudo que podia. Com dificuldade foram até a porta e vi-os sair.

Logo que cerrei a porta, ouvi um vago murmúrio atrás de mim:

– Isso não foi apenas acaso... foi um sinal...

Olhei espantado para Andrei que baixou a cabeça, evitando meus olhos.

– Deus enviou-os.

O relógio deu meia-noite e meia.

Lembrei-me então que não comera nada a manhã tôda e que deveria ter fôrças para enfrentar o que tivesse que enfrentar. Cortei pão com manteiga e pus-me a comer, forçadamente. Em frente de Andrei coloquei outro prato. Quando me inclinei sôbre a mesa, vi que seus olhos se fixavam no capote, que, aberto ficara, deixando entrever a coronha da pistola, fora do bolso da túnica. A bôca ficou-me sêca, pois, antes de voltar a U.R.S.S. os oficiais soviéticos eram obrigados a entregar tôdas as armas. Tôda tentativa de contrabandear armas pela fronteira era punida com severidade. Um major do Serviço da Segurança do Estado devia saber disso muito bem. Fechei o caso, da maneira mais natural possível, olhando-o de lado. Nos seus olhos não havia surpresa e o rosto estava calmo. Os ponteiros do relógio aproximavam-se da hora combinada.

– Com tôda probabilidade não nos veremos mais, disse Andrei, quebrando o silêncio opressivo, suas palavras não sendo uma pergunta, mas antes uma resposta aos próprios pensamentos. E você não quis dizer-me adeus, acrescentou, tristemente.

Fiquei calado, fingindo não ter ouvido sua observação.

– Durante minha vida inteira, nunca confiei em você.

Quando comecei a acreditar, você não me acreditou ou confiou em mim...

Suas palavras penetraram-me no coração, mas nada pude dizer, em resposta. Apenas uma coisa me preocupava: dentro de um momento, o telefone tocaria e, se alguém se interpusesse, eu atiraria.

De novo vi-me a devanear. Como viera saber que ainda estava ali e que partia hoje? Nos últimos dias houvera muitas possibilidades... Talvez tivesse sabido no decurso das suas obrigações militares? Talvez, no seu bolso, houvesse uma ordem de prisão? Afastei de mim êsses pensamentos, ergui-me e pus-me a andar pela sala.

A voz de Andrei, a voz de um major do Serviço de Segurança do Estado fez-se ouvir, como que respondendo aos meus pensamentos:

– Não se zangue por ter vindo...

O relógio movia-se como gotas d'água caindo.

Quase que inaudivelmente, êle prosseguiu:

– Se não tivesse vindo, outros o teriam...

Continuei a andar pela sala, olhando o relógio, de tempo em tempo.

– Talvez queira usar meu carro? perguntou.

– Não, obrigado...

– Então você parte e eu fico, falou êle de novo. Sou mais útil permanecendo no meu pôsto... Se alguma vez pensar em mim, Grisha, lembre-se que eu faço o que posso.

Mais uma vez o silêncio dominou a sala gelada – quebrado apenas pelo mover do relógio.

– Não vai dar-me nada como lembrança? falou êle, novamente, a voz estranhadamente insegura, quase infeliz.

Olhei em volta da sala vazia. O olhar pousou nas costas do macaco sôbre a mesa. Fitei-o, fixamente, como que esperando que se movesse.

– Leve isso, disse, indicando a estatueta de bronze.

– Um macaco negro sentado sôbre o mundo, murmurou. E o homem luta pelo bem, pelo puro e, depois, vê que tudo é sujeira...

O telefone tocou como um tiro de pistola. Sem pressa, peguei o aparelho.

– O carro está aqui, confiaram-me as palavras alemãs.

– Ótimo! respondi, também em alemão.

– Bem... agora devo ir-me, disse eu, voltando-me para Andrei.

Êste ergueu-se pesadamente da cadeira, dirigindo-se com passadas lentas até a porta. Segui-o. Num movimento forçado, como se estivesse mortalmente fatigado, retirou o capote. A gola enroscou nas ombreiras douradas da túnica. Olhando os ombros, puxou o capote tão violentamente que a ombreira foi arrancada.

– As asas... de um escravo! murmurou, suas palavras soando pesada e lentamente no silêncio.

Haviam sido proferidas com tal profundeza de amargor que extremeci, involuntàriamente.

– Desejo-lhe boa viagem! falou, estendendo a mão.

Enquanto eu a pegava e apertava, fitou meus olhos, como que desejando dizer-me algo, mas apenas cumprimentou-me, com firmeza, descendo as escadas. Fiquei a olhá-lo, mas êle não se voltou.

Ali fiquei eu, de pé, até ouvir o som do seu carro morrer na distância. Passaram-se vários minutos. Era tempo de partir.

Eu já entregara as chaves do apartamento, de modo que bastava apenas fechar a porta. Por um momento, hesitei na soleira e, depois, bati a porta, com força, atrás de mim. O fêcho correu, trancando-a. Agora não podia mais voltar.

Voltei-me e saí para a rua, para enfrentar o futuro.


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